Poeira da alma

Demorou um pouco até que eu entendesse o que estava acontecendo…

Começou há uns meses atrás. Aquele cheiro me perseguia onde quer que eu fosse. Um odor de papel velho, um forte cheiro de pó. Começou a afetar minha rinite, eu espirrava sem parar. As coisas ficavam piores nos dias que eu passava trancado em meu quarto. Seria hora de uma faxina daquelas? Tudo indicava que sim!

Naquele sábado ensolarado de outono arregacei as mangas. O celular servia como caixa de som. Uma animada playlist garimpada do Spotify tentava arrancar de mim um ânimo quase inexistente. Vassoura, panos, baldes, água. Esfrega, esfrega. Entre uma dancinha e outra revirei minha estante de livros, cuidadosamente espanei um a um. Me desfiz de velharias. Joguei pilhas e pilhas de papéis fora. No final do dia, parado na porta no quarto, constatei que não havia um centímetro sequer daquele cômodo que não tivesse sentido a fúria do espanador.

Caí na cama, exausto. O alívio de dever cumprido, no entanto, não durou muito. Os “atchins” voltaram, mais fortes do que nunca. O cheiro de pó continuava lá, tão intenso quanto misterioso. Revoltado, comecei a me sacudir no quarto, girando de raiva de um lado para outro enquanto esperneava. WHAT THE FUCK?! Foi num desses espasmos teatrais que parei frente ao espelho. Encarei minha feição de longe, num instante que pareceu ter durado longos minutos. Fui me aproximando. Toquei o rosto refletido, surpreso, como se eu estivesse me vendo pela primeira vez em muito tempo. Talvez estivesse mesmo.

E aí entendi. Entendi de onde vinha aquele odor insuportável de velharia, de poeira. Vinha de dentro, vinha de mim. Me preocupava tanto em tirar a poeira dos objetos que nem vi ela se acumulando na alma. Lá estava eu, envelhecendo, acumulando ferrugem, desperdiçando-me. Estava me desperdiçando desde o momento em que parei de escrever, desde o momento em que comecei aquela busca irrefreável pela razão. As palavras que não anotei, as frases que não escrevi, os versos que não compartilhei… tudo foi se acumulando, camada após camada, dentro de mim. Eu fedia a poeira e vassoura nenhuma daria jeito nisso.

Arregacei a mangas para uma nova faxina. Dessa vez sem vassoura, sem balde, sem panos, sem água. Era uma faxina de dentro para fora. Uma faxina que limpasse de mim toda aquela preguiça, aquela procrastinação, aquela ferrugem. Peguei o notebook. Encarei a página em branco. Cada letra, cada ponto era uma espanada necessária.

O processo de arejamento está apenas começando e sei que será lento. Mas poxa, como é bom respirar fundo e sentir cada vez menos o cheiro forte de pó!

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