O prazo de validade das relações modernas

As pessoas deveriam vir com uma etiquetinha nas costas indicando quanto tempo elas funcionam bem até começarem a dar problemas. Eu sei, pessoas não são máquinas e esse tipo de coisa não é previsível. Mas sabe, as vezes eu adoraria olhar para alguém e de cara ter essa informação sobre ela para saber o quanto de mim deixarei que ela usufrua: se apenas minha companhia para um café, uns beijos e uns bons papos, ou se deixarei aberto o caminho para o coração.

A história é minha e já se repetiu algumas vezes, mas tenho certeza que muitos irão se identificar: você conhece alguém, o papo parece ótimo e os gostos combinam. Você, mesmo sem muita expectativa, convida a pessoa para sair. Aquele frio na barriga, ansiedade gostosa. O dia chega, vocês se veem pela primeira vez e ambos percebem que o outro não é exatamente igual a feição na foto, mas mesmo assim gostam do que veem. Papo vai, papo vem, gostos combinam. Um pega na mão do outro, meio sem jeito. Acontece o beijo. É incrível. Foi um primeiro encontro maravilhoso. Daí em diante as coisas evoluem rápido. Vocês conversam o dia inteiro, falam de seus aborrecimentos diários. Entre um papo e outro começam a trocar confidências. Saem novamente, é ainda melhor que o primeiro encontro. Você começa a achar que talvez, só talvez, dessa vez vai! É isso, a vida finalmente colocou alguém legal no caminho e a vibe parece combinar. A tal da reciprocidade parece instantânea. Bem, só parece mesmo…

Umas semanas após o primeiro mágico encontro, quando você já se sente confortável com a pessoa, quando você acredita que está criando laços mais sólidos, as coisas simplesmente mudam. Assim mesmo, do nada. De uma hora pra outra. Ele começa a não responder suas mensagens com frequência, ignora seus “bons dias” e coloca a desculpa na correria. Adia o próximo encontro e oferece inúmeras desculpas: falta de grana, cansaço, o peso da existência. No início você reluta em acreditar que caiu de novo, mas caiu. As conversas cessam até acabarem. Até que aquela pessoa vira mais um contato qualquer em seu WhatsApp. Um contato que você chegou a acreditar que seria especial, mas não… era só mais um.

O pior é o depois. É revirar segundo por segundo da curta história de vocês tentando encontrar fios soltos, algo que dê uma explicação minimamente satisfatória de porque aquela pessoa – antes tão interessada em você e em tudo que dizia respeito a sua pessoa – simplesmente perdeu o interesse. Mas você não encontra nada. E provavelmente não irá. É isso mesmo: a pessoa simplesmente perdeu o interesse. É o tal prazo de validade. É essa informação que eu faria tudo pra ter previamente. Mas não tenho. Nem você. Nem ninguém.

O que sobra disso tudo é uma dorzinha, que geralmente sara rápido, e um temor crescente de fazer de novo. De conhecer alguém. De expor o nosso “eu” mais oculto. De todo o processo envolvido nessa mostra. É justamente esse medo que nos faz jurar a nós mesmos que seremos mais atentos, não vamos nos deixar seduzir por palavras doces, nem gostos em comum de novo. Não dessa vez.

Mas a gente deixa, sempre deixa. E ao contrário do que uns acreditam, se entregar não é ser idiota. Se entregar é ser humano! Primeiro porque se o prazo de validade dos sentimentos alheios dura tão pouco a culpa não é sua. Segundo, porque nem todo mundo tem tanta facilidade assim para apaixonar e desapaixonar-se. Uma hora a gente esbarra com alguém cujo sentimento só cresça à medida que o tempo passa, não o contrário. Uma hora a gente dá a sorte de acertar. Mas, como em todo jogo, antes de acertar precisamos apostar. E eu, bem, eu sempre vou pagar pra ver.

2 comentários

  1. Tempos de amores líquidos, já diz Zygmunt Bauman.

    Talvez você devesse parar de procurar, deixe que venham até você. Foi assim comigo, quando finalmente desisti, apareceu. E permanece há um pouco mais de três anos 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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