Os vícios que adquirimos pelo caminho

Hoje vou lhes contar três breves histórias. Não esperem que eu extraia grandes reflexões delas, pois meu objetivo maior é justamente deixar essa tarefa pra vocês.

A primeira história é de um conhecido meu, Ricardo. Rapaz bonito que tem o vício de comprar roupas. Rick, como é chamado, gasta quase todo o salário com camisas, calças, jaquetas e mais uma infinidade de peças cujos nomes desconheço. Tamanha é a compulsão, que o moço está afundado em dívidas. Mas além de roupas, Ricardo tem um outro vício ainda mais intrigante: amores. Coleciona uma quantidade invejável deles e os trata como suas peças de vestuário: belos, mas descartáveis em pouco tempo. ‘Cansam rápido’, explicou-me certa vez. Certo dia Rick conheceu Rafa. Foi paixão fulminante. Ele se sentia enfim pronto para dar adeus a vida de amores descartáveis. Os dois conversavam toda noite, passavam o dia trocando mensagens, ele almoçava pensando em Rafa e ela dizia que almoçava pensando nele também. Ele só queria saber de Rafa, sair com Rafa, comprar presente pra Rafa, Raf, Ra… “Desculpa, não vai rolar mais”, soltou a moça, assim de repente, numa tarde de sábado em que ele planejava pedi-la em namoro. Ao ser questionada do porque, ela respondeu que não estava na mesma vibe e que tinha conhecido um outro alguém. “Foi mal”, se despediu. Devastado, o pobre garoto sentiu o impacto de ser descartado. Provou do próprio veneno e não gostou nem um pouquinho. Sabe-se lá Deus quando irá se recuperar. O que dizem por aí é que, desde então, Ricardo anda pelas ruas cabisbaixo e usando sempre uma mesma velha camiseta branca…

A protagonista da segunda história atende pelo nome de Aline. Já beirando os trinta e cinco anos, a mulher precisa conviver com a frustração de ter um emprego ruim, uma vida sentimental de merda e ainda por cima morar com uma mãe neurótica que, de tão tempestuosa, colecionava o quinto divórcio. Aline não lembra exatamente quando, mas há uns anos atrás começou a fumar. Aquelas tragadas que no início aliviavam a tensão, hoje haviam se transformado numa insuportável e brutal necessidade, quase uma punição. Aline vivia zangada. Além da toxicomania, era viciada em mau-humor e suas consequências – especialmente ao outro. Soltava olhares mortais a qualquer ser humano que ousasse lhe fitar nos olhos. Sentia raiva por fumar tanto, pela vida que levava, pela mãe de gênio insuportável que precisava aguentar e pelo simples peso da existência. Certo dia, voltando do supermercado, trombou sem querer num senhor uns bons anos mais velho. “OLHA PRA ONDE ANDA CACETE!”, esbravejou Aline ao homem que, assustado diante da reação desproporcional, se desculpou timidamente e se afastou. Ela então se recompôs e ensaiou caminhar, mas acabou parando diante da vitrine diante de si. Encarou por alguns eternos segundos sua feição refletida no vidro. Cabelos bagunçados, rosto ranzinza, marcas de expressão que denunciavam seu estado de espírito, cigarro entre os dedos… “EU ME TRANSFORMEI NA MINHA MÃE”, de repente concluiu perplexa. “E AGORA?!”.

A terceira e última história é de um garoto doce. Paulo, ou melhor, Paulinho (como prefere ser chamado). Paulinho tinha dois vícios. O primeiro era delicioso e respondia pelo nome de chocolate. O rapaz comia compulsivamente aquele alimento dos deuses e sentia um mal-estar enorme quando não o fazia. Tamanho foi o consumo que Paulinho acabou diagnosticado com problemas de saúde. Teve que interromper imediatamente o consumo. Foi um choque. Chocolate era a resposta para quase todos os problemas e agora ele se sentia como Sansão depois que terem lhe cortado os cabelos. O segundo vício de Paulinho era bem menos doce. Ele era viciado em dar adeus. Não é algo do qual ele se orgulhava, obviamente, mas era quem ele era. De tanto ver as pessoas indo embora de sua vida, Paulinho desenvolveu uma estranha facilidade de também dar as costas e partir sem nunca olhar para trás. Acontece que nesse processo de tratar o adeus com tamanha frieza ele acabou dando as costas para algumas pessoas que gostariam muito de ter ficado. Era sozinho. Era sozinho e havia causado isso a si próprio. Analisando no que havia se transformado, percebeu quão amarga sua vida se tornara. E o pior: não tinha nada a ver com a falta de chocolate.

Viver não é nada fácil. Diante disso, é comum desenvolvermos vícios que nos ajudem a lidar mais facilmente com certas situações estressantes – uns mais agressivos, outros menos perigosos. Vícios não só por coisas físicas, mas também vícios sentimentais, comportamentais e mentais. Você talvez seja viciado em se colocar pra baixo e nem perceba. Ou pode ser que seja viciado em procrastinar, em provocar situações… a lista é quase infinita.

A gente costuma lidar com vícios como se fossem parte de nós, e tentamos usar isso como justificativa para amenizar o poder destrutivo deles. Eu contei a vocês as histórias de Ricardo, Aline e Paulo para tentar ilustrar o quanto nossos vícios dizem sobre quem somos. E mais: o quanto eles dizem sobre quem somos para com os outros. Os vícios que desenvolvemos para nos ajudar a levar a vida podem estar nos privando dela. Privando de amar melhor, de sorrir mais verdadeiramente, de permitir-nos aconchegar, de entender que a linha que separa inofensivo de perigoso é facilmente transpassada e nem sempre nos atentamos a isso. Nem sempre nos atentamos que as consequências sempre chegam. Sim, as consequências sempre chegam e não costumam aliviar.

Nós somos sempre os maiores prejudicados pelos vícios que nutrimos. Mas não os únicos.

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