Respeite as cicatrizes que você carrega consigo

Há um tempo atrás terminei uma relação que se estendia por meses porque eu estava me envolvendo demais e, ao expor o que sentia para a pessoa, ouvi um sincero (porém doloroso) “não quero nada sério”. Diante disso, expliquei a ela que era melhor parar por ali e cada um seguir para seu canto. A pessoa protestou, mas no final acabou concordando e perguntou se ainda podíamos ser amigos. Foi então que eu, quase automaticamente, soltei um “desculpa, não vai rolar”. Surpresa, ela indagou: “Por que não?”.

Eis a questão: por que eu não conseguia chamar de amigo alguém que eu já quis chamar de namorado? Por que eu preferia me afastar da pessoa a continuar tendo ela em minha vida apenas como amiga? Será que eu havia me transformado num ser mimado e egoísta que não sabia lidar com rejeição?

Na época eu não soube responder a nenhuma dessas questões. Apenas disse para a pessoa que não me sentiria confortável em manter uma amizade com ela. Não houve mais protesto. Cada um foi para o seu canto e o ponto final foi dado. Nós não nos falamos desde então.

Dia desses, diante de uma daquelas crises que a gente tem de vez em quando e não sabe direito o porquê, me peguei pensando novamente nessa história e dessa vez resolvi aceitar o desafio de tentar entender o motivo (ou os motivos, vai saber). Mesmo não sentindo mais nada por ele, por que eu não conseguiria tê-lo como amigo? Me torturei por dias até aceitar de vez que a melhor explicação que eu poderia ter seria… porque não! Mas havia mais, sempre há.

O ser humano é complexo, isso é fato. Além da camada externa que temos (e que todos veem), somos formados por mais um monte de camadas. E essas sim, nos definem muito mais do que a que deixamos visível para os outros. O que conhecem de nós geralmente é apenas a ponta do iceberg.

Se eu pedisse para alguém me descrever, por exemplo, muito provavelmente ouviria da pessoa que sou um “fofo”. E realmente… talvez eu seja. O que essa pessoa talvez não saiba é que por trás desse fofo se esconde alguém que coleciona uma sequência memorável de fracassos amorosos inexplicáveis, frustrações acumuladas e expectativas não realizadas. Por trás desse fofo está alguém que tinha tudo para ser extremamente amargo e que o fato de, ao invés disso, ser um “fofo” é algo do qual ele se orgulha pra caramba, é uma vitória cultivada dia após dia.

Quando conheci aquele garoto, o tal do começo desse texto, talvez tenha ido com sede demais ao pote, é verdade. Ele não fazia ideia de que quanto mais eu o conhecia, mais coisas em comum via entre a gente e que isso começou a nutrir em mim uma falsa esperança de que as coisas talvez finalmente fossem dar certo. Aquele garoto não fazia ideia de que me falar um “não quero nada sério” depois de meses nutrindo (talvez inconscientemente) essa esperança era muito mais doloroso do que aparentava. Ele não entendia que eu não poderia aceitar me tornar amigo dele naquele momento porque toda vez que eu o visse teria que encarar de frente o fracasso, mais um fracasso, e que era demais para mim. Era mais do que eu poderia aguentar. Ele não fazia ideia dessas coisas porque tudo o que ele conhecia de mim era a camada externa, fofa e sem danos aparentes. Mesmo sabendo disso, mesmo sabendo que ele não me conhecia profundamente, eu não voltei pra tentar me justificar. Sinceramente? Não me culpo por isso.

É impressionante a quantidade de situações em que nos metemos para tentar agradar outra pessoa, para justificar “merecer” estar com ela ou simplesmente manter ela em nossas vidas a qualquer custo. As vezes reduzimos quem somos a quase nada para tentar não sofrer tanto pelo fato de estarmos indo contra o que sentimos em prol de um outro alguém. Essa é uma das coisas mais danosas que poderíamos fazer a nós mesmos, especialmente porque ninguém nesse mundo nos conhece totalmente. Ninguém sabe a quantidade de cicatrizes que carregamos em cada camada oculta que nos forma e o tempo que levou para que elas sarassem. Não, ninguém sabe. Só nós mesmos.

Só você sabe o quanto dói manter uma pessoa por perto, e por isso prefere não fazê-lo. Só você sabe como foi difícil seu último relacionamento e por isso você optou por não se envolver com mais ninguém no momento. Só você sabe porque precisou excluir as redes sociais por um tempo, raspar o cabelo, mudar o estilo de se vestir ou pedir demissão daquele emprego medíocre. Só você.

E é justamente por isso que precisamos pegar leve com nós mesmos. Precisamos respeitar as cicatrizes que carregamos e entender que muitas vezes um “porque não” ou um “porque sim” são respostas mais do que suficientes. Viver tendo que se justificar o tempo inteiro para alimentar a ilusão de que fazendo isso vamos manter a vida em equilíbrio é tão exaustivo. Mais do que isso, é desnecessário. Muitas vezes nem nós mesmos nos damos conta da quantidade de nuances que carregamos. Muitas vezes teimamos que determinada cicatriz não dói mais, e por isso forçosamente encaramos uma situação desconfortável para testar nossa resistência. Eis que a ferida volta a sangrar, e volta com força. Pois é… ainda dói. Ainda não sarou completamente.

Se colocar em primeiro lugar para evitar situações que te deixem mal não é egoísmo, é questão de saúde emocional. Respeite-se. Mais do que isso, avalie se realmente vale a pena tentar formular uma resposta complexa para alguém que só se esforça em enxergar sua camada aparente. Acima de tudo, dê a si mesmo o tempo necessário para amadurecer as respostas que tanto busca. Elas provavelmente estão dentro de você e cedo ou tarde emergirão à superfície.

Meu nome é Paulo e eu não consigo manter amizade com alguém que já chamei de amor. Talvez um dia eu consiga, talvez um dia eu encontre o que tanto busco e não sinta mais dor ao manter em minha vida um ex-amor. Talvez um dia eu lide bem com o fracasso, ou melhor, talvez um dia eu não precise lidar com ele. Mas por hora eu não tenho que me justificar por evitar situações que me fazem mal. Eu não tenho que justificar sobre porque dói aqui dentro. Apenas respeite isso. Mesmo que depois dessas palavras você ainda não entenda os meus motivos, respeite o esforço que venho fazendo para continuar caminhando. Tem sido uma longa estrada, sabe? Tem sido uma longa estrada e me sinto orgulhoso por apesar de tudo conseguir continuar sendo… fofo. É uma luta diária. Para todos nós.

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