O Filme da Minha Vida

Sai da sala de cinema meio cabisbaixo, reflexivo. Não era pelo filme em si – que por sinal adorei – mas pelo que ele me despertou. Tinha acabado de assistir a “O Filme da Minha Vida”, longa nacional dirigido por Selton Mello e protagonizada por Johnny Massaro e Bruna Lizmeyer. A película narra de forma bastante poética determinado período da vida do jovem Tony, personagem de Johnny, as descobertas que faz e as fortes consequências que isso traz a ele e aos que o rodeiam. A direção, a trilha sonora e a fotografia são belíssimas e recomendo que assistam. Mas como eu disse acima, essas palavras não são sobre o filme, são sobre a reflexão que ele me trouxe. Afinal, como seria o filme da minha vida?

Fui dormir pensando no assunto e as respostas que ia encontrando não me satisfaziam muito. Revirando superficialmente o passado, percebi que talvez eu seja o tipo de pessoa que vive excessivamente em função do amanhã. Parar para pensar nisso me deixou amedrontado. Será que esqueci do hoje? Será que o filme da minha vida teria um roteiro chato e lacunas que eu esperava que o “amanhã” preenchesse? E se esse amanhã não chegasse?

Talvez você se identifique com minha pedra no sapato: gasto tanto tempo planejando o amanhã que as vezes sinto que não dá tempo de focar no hoje. Claro que parte disso vem da pressão enorme exercida sob nossa geração, pressão essa baseada em valores que sequer nos identificamos. Mas se eu sei disso, o que me independe de tomar as rédeas? O fator acaso está aí, livre, leve, solto e pronto para bagunçar planos, confundir certezas e dar um nó cego no mapa que traçamos e julgamos como certeiro rumo à estabilidade – financeira, emocional, profissional e por aí vai. Sendo assim, apoiar a vida exclusivamente em planos futuros, gastando o dia em prol de objetivos que podem se desfazer como uma bolha de sabão não parece lá a melhor das estratégias.

Passei a semana inteira remoendo essa questão. Eu estraguei o filme da minha vida por pensar demais no amanhã, eu estraguei o filme da minha vida por pensar demais, eu estr… É estranho que quando mergulhamos fundo numa questão cujas respostas inicialmente não agradam, deixamos nossa razão ser coberta por um manto negro que impede nossa visão clara dos fatos. E eu estava totalmente coberto por ele. Para piorar, toda essa maré existencial veio à tona justo na semana do meu aniversário…

Eu tinha combinado de encontrar alguns amigos num barzinho para brindar meus vinte e quatro anos, apenas para não deixar a data passar em branco. Não estava muito afim de comemorar nada, até porque tinha recém adquirido a certeza inabalável de que o filme da minha vida era um fiasco de bilheteria e o roteiro completamente entediante. Só queria ficar em casa, só queria que passasse logo, só queria que… Olha lá, eu estava fazendo de novo!

Sai de casa. Fazia frio, chovia bastante. Confesso que estava com medo de ninguém aparecer. Mas eles vieram. Um a um foram chegando e enchendo a mesa. Foi um agradável momento regado a brindes, risadas, velhas histórias e a sensação de aconchego. Mais para o final da noite, observei todos com seus copos quase vazios e mais felizes do que geralmente estariam numa noite chuvosa de terça-feira. Observei as conversas, as risadas, os olhares, as mãos que faziam carinhos quase involuntários uns nos outros enquanto conversavam. Lembrei de como conheci cada um, de como nos tornamos tão unidos e de como foi a caminhada para que chegássemos até ali, juntos naquela mesa brindando a mais um ano de vida. Percebi que aquela era uma cena do filme da minha vida, talvez uma das mais bonitas, uma daquelas rodando em câmera lenta com uma trilha soft rock tocando ao fundo. Comecei a entender, naquela mesa de bar, que o filme da minha vida não seria tão ruim assim. Talvez o roteiro precisasse de ajustes, é verdade. Mas o elenco, ah, o elenco valia o ingresso!

Não é verdade que deixei de viver o presente em função do futuro. Se assim tivesse feito, não teria aquela mesa cheia de amigos e histórias para recordar. Mas sim, as vezes me desgasto demais preocupado com o incerto. E sim, preciso ajustar isso. Acredito que todos nós precisamos, em maior ou menor nível. Há sempre um meio-termo.

Percebi que meus problemas são muito mais uma questão de ajuste de ponto de vista do que de ação prática em si. Quando tiramos uma conclusão negativa de uma questão que nos afeta e deixamos que ela obstrua nossa visão a ponto de escurecer a paisagem, só o que enxergaremos será um borrão. Quando nos empenhamos para ver beleza na vida e nos momentos que compartilhamos, as questões ruins perdem força. Talvez nosso maior erro seja achar que para que o filme de nossas vidas seja interessante, o roteiro precise ser regado a reviravoltas, drama e ações desenfreadas, quando na verdade a maior beleza na história de todos nós está guardada nos detalhes do cotidiano, no barzinho de terça a noite, nos papos da hora do almoço, nas mensagens enviadas no meio do dia. Essa é a grande amarra que preenche lacunas e dá substância ao roteiro.

Desde que entendi isso, venho me dedicando a montar mentalmente o roteiro da minha vida. Com um cuidado minucioso, estou caçando e polindo lembranças, uma a uma. Quanto mais faço isso, mais histórias maravilhosas encontro e mais percebo que o filme da minha vida seria sim um baita filmão. E sabe o que é melhor nisso tudo? A história continua a todo vapor.

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