Como eu era antes de você

Aquele era eu, apressado como sempre, cansado depois de um dia estressante no trabalho.  Eu desci do ônibus em direção ao metrô e não via a hora de chegar em casa. Fazia o caminho de volta num modo automático, minhas pernas seguiam o trajeto enquanto minha mente tentava não pensar em uma infinidade de coisas. Eu havia desenvolvido aquela técnica infalível: simplesmente não pensar. Estava funcionando. Por quanto tempo mais? Só Deus sabe.

Cheguei na porta do metrô e, como sempre, precisava encarar aquela fila insuportável para chegar até a catraca. A diária marcha dos pinguins paulistanos. E eu era um deles, mais um. A passos lentos fui me aproximando dos bloqueios. Ainda com a cabeça num universo paralelo atravessei a catraca. Imediatamente após isso olhei para a frente, num gesto quase que automático. Tantos corpos de costas, tantos corpos sem rosto marchando em direção à plataforma. De repente uma visão estranhamente familiar chamou atenção de meu olhar cansado. Aquele suéter vermelho. Aquela tatuagem no pescoço. Aquele corte de cabelo. Não! Não poderia ser você. Você teria me avisado se tivesse voltado à São Paulo. Você teria me avisado mesmo que, um ano atrás, eu tivesse implorado para nunca mais ter notícias suas. Você teria me avisado porque você é do tipo que costuma ignorar quando pedem para que você desapareça. Você teria…

Com licença! Perdão. Desculpe. Me deixe passar. Foi mal.

Aflito, corri tentando te alcançar. Me desviando da multidão para tentar não perder de vista o garoto do suéter vermelho que andava apressado em direção à plataforma do metrô. Desci o primeiro lance de escadas. Não podia ser você, sem chances de ser. Com certeza era apenas alguém parecido. Essa cidade é enorme. Desci o segundo lance de escadas. Você se aproximava da plataforma. Seria possível? Fui me aproximando. A certeza de que era você aumentava e ia consumindo as poucas forças que ainda me restavam. Não tive coragem de me aproximar. Não saberia o que fazer. Não poderia fazer nada.

O metrô chegou. As pessoas se empurravam para entrar. Você no meio. Alguém te empurrou. Você olhou para trás para ver quem tinha sido. Eu, ali parado, fotografei com o olhar cada centímetro de sua feição. Nesse momento senti como se tudo rodasse em câmera lenta. Senti vertigem. Senti o peso do mundo em minhas costas. Sim, era você.

E eu ali, parado no meio da plataforma lotada. Pessoas esbarrando em mim. Eu tinha perdido a noção de tempo, de espaço, de tudo. Era você. Eu lutava com todas as minhas forças para que aquilo que eu estava sentindo não fosse o que eu achava que era. Era você. Apertei os pulsos tentando me controlar, mas não teve jeito. Era você. Chorei. Pela primeira vez desde que você se foi eu chorei. Senti as lágrimas escorrendo em meu rosto. E eu ali parado. Senti as pessoas me abordando e perguntando se eu estava bem. E eu ali parado. Vi você entrar no metrô e sumir túnel adentro. E eu ali parado. Era você. No mesmo suéter vermelho de sempre. Era você.

Chorei. Imóvel, tentando entender porque aquelas lágrimas não paravam de jorrar. Tentando entender o efeito que sua presença exercia sobre mim. Não era amor. Há muito tempo que não era mais amor. Não era. Sentei no banco, as pessoas desistiram de tentar entender o que estava acontecendo. Uma mão qualquer me estendeu um lenço de papel. Peguei. Eles se foram, perceberam que eu só precisava ficar sozinho. Sim, em meio à multidão, mas sozinho. Não era amor. Não mais. Não era amor. Será possível que era…

Sim, era. Era saudade. Mas não saudade de você. Era saudade de mim. Era saudade de como eu era antes de você. Uma saudade que dilacerava o peito e me fazia perder os sentidos. Uma saudade que me incomodava há tempos mas só se manifestou ali, quando vi seu rosto novamente. Você despertava a saudade que eu sentia de mim mesmo, e isso era algo doloroso de admitir. Saudade por lembrar que um dia eu soube como era amar sem ter o coração partido. Era saudade de algo que não voltaria mais, era a falta de um ‘eu’ que ficou no passado. As lágrimas vinham daí. Dessa falta. Lágrimas que saíam de meus olhos, escorriam por meu rosto até o chão e seguiam em direção aos trilhos. Lágrimas que, pouco a pouco, foram formando um rio que corria túnel adentro. Rio que perseguia o trem em que você entrou. Um rio de lágrimas que continha um ano de saudade. Não de você, de mim. Um rio que carregava consigo todo vestígio de mágoa, toda palavra não dita, tudo o que não deu tempo de lhe devolver. Um rio que carreguei em meu peito e que agora corria em direção a você.

E eu ali, sentado. Sabia o que precisava fazer. Sabia que naquele momento não deveria tentar me controlar, sabia que tudo o que eu poderia fazer era deixar que toda a complexidade que habitava meu ser se expressasse como quisesse. E continuei ali, sozinho em meio à multidão, deixando que as lágrimas escorressem e corressem túnel a dentro.

As horas se passaram. O vaivém das pessoas na estação diminuiu. Algum tempo depois – não sei quanto para ser exato – senti que as lágrimas finalmente cessaram. Não havia mais o que chorar. Respirei fundo. Fiquei de pé. É difícil expressar em palavras como me senti naquele momento. Era uma leveza transcendental, uma leveza de alma. Era como se alguém tivesse tirado um peso insuportável de minhas costas.

Olhei no relógio, a noite já havia chegado. Outro trem se aproximava da plataforma, mas resolvi não embarcar. Não! Ao invés disso corri de volta às escadas, subi apressado, saí da estação.

Eu precisava respirar.

Eu precisava ver gente, admirar as luzes da cidade, sentir o movimento, ouvir os sons.

Eu precisava celebrar a primeira noite de primavera.

Eu precisava viver. Sim, viver!

Naquele momento eu entendia que não adiantava mais chorar pelo que passou, porque o tempo não volta, lembranças não desaparecem e você sempre vai estar por aí, no metrô, na rua, na cidade. Eu entendia que não era amor, sabia que a saudade que eu sentia não lhe pertencia e sabia que não deveria continuar tentando apagar você de minha vida. Eu sabia. Sabia de tudo isso. Sabia que jamais voltaria a ser como eu era antes de você. Mas, pela primeira vez desde que você se foi, estava disposto a ser alguém melhor depois de você.

Era tempo de florescer.

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