Tudo o que eu sempre quis

No meu sonho você está sentado na mesa da cozinha, animado, falante. Debocha carinhosamente de minhas habilidades culinárias enquanto eu corro para lá e para cá preparando os ingredientes para o almoço. Mamãe chega para te fazer companhia à mesa e os dois iniciam o esporte favorito de ambos: falar de mim. Enquanto eu me ocupo cortando os legumes, admiro a cena: as duas pessoas que mais amo no mundo jogando conversa fora em perfeita harmonia. Momentos depois mamãe sai da cozinha e vai descansar um pouco. Você para de falar e começa a me encarar de um jeito que só você sabe fazer. “Daquele jeito”. Eu sustento a troca de olhares serenamente por uns instantes, mas não aguento muito tempo. Caio na risada, sem graça. Você com certeza previu aquilo.

Volto a me ocupar com o almoço. Você levanta e me abraça por trás. Não diz nada, apenas envolve seus braços em meu quadril, apoia sua cabeça em minhas costas e ali fica por uns instantes. E então dá um cheiro em meu pescoço, um beijinho carinhoso e vai para o quarto. Eu termino de colocar a comida no fogo e vou também. Deito na cama ao seu lado. Rostos quase colados. Sinto sua respiração. Novamente aquele silêncio de dois cúmplices que sabiam que não precisavam dizer uma palavra sequer. Dessa vez eu não ri. Eu te beijei.

Curioso que eu te olho fixamente, mas não vejo seu rosto com nitidez. É apenas um borrão. Não que isso me incomodasse, pelo contrário, eu não via necessidade de lhe atribuir identidade. Apenas sabia que era meu. Mas de seus olhos eu lembro perfeitamente, ah se lembro. Verdes e brilhantes como esmeraldas. Penetrantes.

Aquele momento. Nós ali, deitados, trocando confidências através do olhar.

Você acariciando meu rosto com sua mão e eu fechando meus olhos para sentir melhor teu toque.

A maneira como a simplicidade da vida atingia um nível que beirava a perfeição.

O jeito como eu me sentia a seu lado.

Você.

Tudo o que eu sempre quis.

E aí eu acordo.

O êxtase de experimentar novamente um sonho tão forte ainda me consumia. Era inevitável não sorrir. E assim fiquei por longos minutos. Até que aos poucos a expressão serena ia dividindo espaço com a frustração de, mais uma vez, ter sentido o gosto da felicidade genuína escapando de minhas mãos. Você, figura mística de alma gentil, face borrada e olhar penetrante se foi novamente. Você que vinha me visitar ocasionalmente. Você que estava me fazendo sentir cada vez mais a sua falta. Sentir cada vez mais a falta do que nunca tive de fato.

Ali, deitado na cama, quase paralisado diante da fragilidade das coisas, eu olhava fixamente o teto branco. Como pode ser? Como pode parecer tão real e não passar de miragem? Talvez suas visitas a meu subconsciente sejam o ápice do que experimentarei daquilo que imagino ser o amor verdadeiro. Talvez eu não esteja preparado para mais que isso. Talvez eu tenha passado tanto tempo no mundo dos sonhos que não consiga mais lidar com a realidade. É, talvez.

Estranho parar para pensar como tudo o que eu sempre quis consegue ser tão simples e tão complexo ao mesmo tempo. Estranho analisar como o amor sempre me foi uma equação tão complicada e como estou cada vez mais cansado de tentar resolvê-la. Ali, deitado, imóvel, vejo que meu caso provavelmente não tenha mesmo solução e eu tenha entregado os pontos. Meus vazios ficaram grandes demais sem que eu percebesse.

Tal conclusão me arrepia, não nego. Sinto um tremor começar na ponta dos pés e invadir todo o meu ser. Nunca me senti tão frágil, tão medíocre diante das artimanhas do imprevisível. Mas ao mesmo tempo, nunca estive tão certo quanto ao final da história.

Faço o que me resta fazer. Fecho os olhos forçando desesperadamente as pálpebras para tentar voltar a dormir logo. Eu sei que você, meu amor, não me visitará duas vezes numa mesma noite. Eu sei que você só virá até mim quando eu deixar de clamar por ti. Eu sei. Mas ali, naquele momento, não havia nada mais que eu pudesse fazer além de tentar.

Você, meu amor, venha até mim. Achegue-se. Você, por favor, venha logo. Quero cozinhar para você, quero saber do seu dia, quero deitar contigo, ouvir tua risada, quero sentir que é real. Mesmo que não seja. Mesmo que seja só na minha cabeça. Você me faz sentir como se fosse de verdade. E meu bem, diante da minha realidade, isso é tudo o que eu sempre quis.

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