Até que ponto vale a pena insistir?

Gosto de filmes que me fazem pensar. “Ninguém Está Olhando” fez. Trata-se de um filme argentino que entrou em cartaz recentemente. Dirigido por Julia Solomonoff, a película é protagonizada pelo ator Guillermo Pfening, que vive Nico, ator de novelas de sucesso na Argentina que resolve deixar para trás sua carreira (e sua complicada vida amorosa) para tentar a sorte como ator de filmes em Nova York. O rapaz não era feliz interpretando para a TV e ainda era obrigado a trabalhar com o cara por quem era apaixonado (e que era comprometido). O filme se desenrola mostrando as muitas tentativas de Nico de fazer sua carreira acontecer. Mas a cada passo que ele julgava estar dando para frente, na verdade dava dez para trás. O que o movia, acima de tudo, era o orgulho. Não se daria por vencido, não admitiria a si mesmo que havia feito uma escolha errada. Isso o levou a aceitar “bicos” como babá e garçom, tudo para continuar perseguindo o sonho americano…

Contei o resumo do filme para entrar no real assunto desse texto: quais os limites da persistência? As vezes traçamos planos tão perfeitinhos em nossas cabeças que esquecemos de perguntar ao universo se aquilo realmente tem viabilidade. As vezes mergulhamos tão profundamente em expectativas irreais que somos incapazes de enxergar todos os sinais que a vida está dando que aquilo já deixou de ser persistência há muito tempo. É apenas insistência.

Eis uma questão complicada do ato de amadurecer: como diferenciar genuína persistência de uma total e inútil insistência? Como disse anteriormente, as vezes a resposta está nos sinais que a vida dá. Pode ser que estejamos tão determinados a provar a nós mesmos que não fizemos uma escolha errada, que continuamos martelando no vazio e, consequentemente, apenas perdendo tempo.

Faz parte da vida fracassar. Todos fracassamos de vez em quando. Admitir isso para si mesmo, erguer a cabeça e mudar o rumo é a maneira mais adulta de lidar com a situação. Mas como gostamos de ser crianças de vez em quando, não é mesmo? Insistindo naquele relacionamento que não tem mais amor, naquela carreira que não tem nada a ver conosco, naquela amizade cujo único amigo é você… a gente insiste porque detesta admitir que falhou. Mas ei, está tudo bem, faz parte da vida. Tanto é que, muito provavelmente, o sucesso profissional ou afetivo que todos nós tanto buscamos possa estar justamente nos esperando na contramão.

Mais para o final de “Ninguém Está Olhando” Nico caminha por uma Nova York coberta da neve de dezembro. Reflete sobre o que vinha fazendo até então e todos os resultados frustradas que colheu. O rapaz volta para seu apartamento, faz as malas e finalmente retorna a Buenos Aires. Mas dessa vez, diferentemente do cara que praticamente fugiu para Nova York, Nico retornava sabendo exatamente o que deveria fazer. E fez. Colocou um ponto final na relação tóxica com seu amante, abandonou sua infeliz carreira na TV e aceitou o convite de um amigo para estrelar uma peça de teatro. Ele finalmente se encontrara. Estava ali o tempo todo. Estavam perto dele todas as respostas pelas quais ele tanto procurava.

Eis aí mais uma lição valiosa: tudo vira experiência. Admitir a si mesmo que determinadas coisas na sua vida não estão funcionando e decidir mudar de rumo não significa menosprezar os motivos pelos quais você inicialmente tomou aquela decisão. Indivíduos complexos que somos, estamos em constante mudança. O que fazia sentido ontem, hoje talvez não faça mais. A nossa realidade não é imutável, tampouco nossa percepção acerca do que é melhor para o nosso “eu” de agora.

Quebrar a cara dói, mas muitas vezes ainda é a maneira mais efetiva que o universo encontra de nos fazer acertar a rota de nossas vidas. Quando sofremos o baque mas absorvemos a experiência, acabamos crescendo como seres humanos. Que a cegueira do orgulho e a teimosia da insistência não nos prive de entender isso.

Está tudo bem voltar atrás, a felicidade pode ter ficado na esquina que passou.

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