A prateleira mais alta da estante

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Lá estava eu, sentado, sem pressa, tomando meu café e fazendo uma das coisas que mais gosto: contemplar o vaivém. Todo final de ano é a mesma coisa: é inevitável não ser tomado por uma autorreflexão acerca do que passou. Dessa vez, de alguma maneira, tudo parece muito mais aflorado. Não há como negar que são tempos estranhos.

Se você perguntar para qualquer pessoa que me conheça minimamente sobre quais são as minhas posições acerca dos assuntos “amor” e “relacionamento” ela muito provavelmente vai acertar a maioria das coisas que disser. Transparência sempre foi um dos meus fortes. Ao contrário do que muita gente prefere fazer, nunca fiz questão de esconder meus percalços nessa área da vida.

Fato é que quando eu conversava mais profundamente sobre esse assunto com chegados e conhecidos, ouvia basicamente os mesmos tipos de conselho: “pense menos, aja mais”, “se joga sem se preocupar com o que virá depois” e “dê chances mesmo que não pareça promissor” eram os mais recorrentes. Eu entendia a lógica por trás do que eles diziam , essa coisa de aproveitar o agora faz sentido. Eu sai de 2016 com o coração em processo de recuperação e, pela primeira vez, decidi seguir esses conselhos. Nunca antes em minha vida sai com tantas pessoas, experimentei o gosto de tantos beijos, fiz tantas coisas sem pensar e dei tantas chances a quem as pedia quanto em 2017. Hoje, sentado analisando a água que passou por debaixo dessa ponte, digo sem pestanejar: não me arrependo de nada, mas não faria de novo.

Quando o desespero bate, quando a ânsia por definição de identidade parece insuportável a gente apela para a mudança. Corta o cabelo, adiciona novos contatos, instala aplicativos de relacionamentos, anuncia que está mudando. Está tudo bem, mudar faz parte da evolução. Mas  voltando a mim, agora vejo que o que tentei fazer, no entanto, vai muito além de mudar uma ou outra forma de agir. Tomado por um desespero quase inocente achei que talvez pudesse ser um boa ideia mudar aquilo que tenho de mais único: minha essência.

Anota aí: sempre vale a pena mudar. De opinião, de ângulo, de estilo de roupa, de emprego, de curso na faculdade. Mas avalie uma, duas, dez vezes antes de decidir se realmente vale a pena mudar quem você é. Quais os motivos? É por você ou para se encaixar em expectativas alheias? Qual o preço que será pago por isso?

O Paulo de 2017 foi um rapaz que deixou orgulhosas pessoas próximas, mas por mais que tentasse não conseguiu deixar orgulhoso a si mesmo. Isso porque o Paulo de 2017 era o cara que todo mundo queria que ele fosse. Todo mundo menos ele.

Eu nunca vou ser um cara de impulsos e de realizações momentâneas. Assim como não sou de conexões imediatas e nem de aberturas instantâneas. Deu muito trabalho aceitar que isso não faz de mim alguém menos interessante e que o prazer advindo do acaso nunca me pareceu tão interessante assim.

Há um tempo atrás, um tempo considerável, eu fiz escolhas que me moldam até hoje. Eu sabia vagamente o caminho que estava tomando, mas tinha claros os meus objetivos. Aquele garoto gritava desesperadamente por atenção, por se encaixar, por se sentir dentro de um grupo, de um rótulo, de qualquer coisa que o fizesse parte do todo. Já o cara de hoje em dia não faz mais a menor questão de se encaixar porque aprendeu que ser deslocado não é o pior dos mundos. O cara de hoje convive bem com uma solidão que é maior do que a maioria das pessoas consegue enxergar, e não se importa tanto com ela. Diferenças à parte, se tem uma coisa que o garoto de anos atrás e o homem de hoje conservam em comum são os valores do que deve ser feito, de como deve ser feito. Falo da vida, falo do amor.

As vezes bate um aperto no peito. Coisa de quem sente demais num mundo que parece sentir cada vez menos. As vezes me questiono se isso, se tudo isso realmente levará a algum lugar. Não há garantia, não há manual de instruções e nem maneira certa de percorrer a linha da vida. Cada um faz o que considera ser melhor. Tenho feito o que considero ser o melhor e sei, de alguma forma inexplicável, que não saberia fazer de outra maneira sem abrir mão daquilo que o universo queria que eu fosse. Daquilo que eu sempre fui antes mesmo de ser.

Há muitos anos atrás eu coloquei o amor na prateleira mais alta da estante. Longe de alcances fáceis, longe de promessas vazias, longe de paixões de momento. Na época eu não sabia ao certo o que significava fazer isso, mas agora eu sei. Agora vejo claramente. Eu coloquei o amor na prateleira mais alta da estante porque ali ele estaria a salvo da  maré de liquidez dos dias. Eu coloquei o amor na prateleira mais alta da estante porque nunca vou me contentar com algo que não seja sólido e lúcido o bastante para valer o esforço de tirá-lo de lá. É uma ousadia sem tamanho e o preço é alto, eu sei. Mas eu pago. Venho pagando por todos esses anos de qualquer maneira. Está tudo bem.

O que desejo a você nesse ano novo que se aproxima? Desejo de coração três coisas: que você conserve sua essência, banque quem você é e pague o preço por isso. Por mais caro que seja, por mais que te faça se sentir deslocado, respeite quem você é intimamente. Está tudo meio estranho, parece que paira no ar uma dificuldade absurda de encontrar significados e fazer conexões duradouras. São tempos rasos, eu sei, mas você não precisa aceitar se deixar arrastar pela correnteza. Não sem lutar. Eu sei que as vezes não parece, mas de alguma maneira que foge ao meu entendimento, acredito que sempre vale a pena ser fiel a si mesmo. Se não pelos outros, por você.

Feliz ano novo.

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