Não olhe agora, estou olhando para você

Desde a primeira vez que o vi, já sabia qual papel ele desempenharia em minha vida. Não, não seria como os outros. E quanto a mim, eu não cometeria os mesmos erros de antes, especialmente o pior de todos eles: falar.

Tudo começou num fim de tarde de outubro. Entrei naquele café por simples casualidade: era mais perto de onde eu estava no momento. Sentei, folheei o cardápio e fiz meu pedido. Lá estava ele, sentado na mesa frente a mim. Quase imediatamente meu olhar fisgou sua fisionomia. Sereno, ocupado com a leitura de um livro cujo título nem me atentei. Não sei explicar porque, nem sei se essas coisas têm explicação. Mas ele parecia ter sido desenhado a partir de meus mais secretos desejos, para que meu olhar se deliciasse com detalhes que eu sabia que desejava na mesma intensidade com que se surpreendesse com detalhes que suscitavam novos desejos. A sensação de que já o conhecia era latente, embora eu não conseguisse lembrar de onde. Apesar da euforia borbulhando em meu interior, não fiz nada além de contemplar. Ele era do tipo que merecia ser contemplado.

Cabelo na altura do ombro, colocado delicadamente por trás das orelhas. Sobrancelhas grossas, mas bem desenhadas. Seus olhos eram grandes, expressivos, e pareciam delineados naturalmente. O nariz, grande, certamente não ficaria bem em outros rostos, mas era harmônico no dele. Lábios finos e vermelhos pareciam ter sido desenhados com esmero. Barba rala, bem aparada, e um maxilar de contornos retos finalizavam aquele rosto que tanto me chamara atenção.

Passara-se cerca de uma hora após eu ter chegado. Ele fechou o livro, pagou a conta, se levantou e saiu. E eu continuei ali, sentado, ainda organizando aquele ser em minha mente.

Não sabia se ainda o veria, mas resolvi voltar. No dia seguinte lá estava eu, mesmo lugar, mesma hora. E lá estava ele, na mesma mesa, com o mesmo livro. Eu tinha passado quase toda a noite anterior tentando lembrar de onde o conhecia. Esforço em vão. Tão em vão que desisti de me esforçar. Mas aí, sem razão nem porque, minha mente resolvera colaborar. Sim, eu sabia quem ele era. Isso mesmo. Era irmão de uma amiga do passado cujo contato eu já havia perdido. Eu havia o visto umas duas ou três vezes há  quase uma década atrás. Impressionante como a fisionomia pouco havia mudado. Sem dúvidas era ele. Era B.

Enquanto eu saboreava minha descoberta, admirava cada detalhe daquele rosto simétrico. Guardava o máximo de informações que eu podia, para tê-lo vívido em minha mente quando aquela única hora do dia em que compartilhávamos do mesmo ambiente terminasse. Por favor B., não olhe agora, estou olhando para você.

Mas de nada adiantara pedir. Enquanto eu descaradamente o comia com os olhos, B. tirou a atenção do livro e me encarou. Foi fulminante. Fiquei petrificado por um instante. Eu tinha olhado no interior dos olhos de Medusa e não tinha volta.

Inutilmente, tentei disfarçar e tirar o peso do meu olhar de cima do pobre rapaz. Ele voltou ao livro e eu juro por Deus ter visto – com uma pequena dose de certeza e outra não tão pequena de esperança – que ele havia esboçado um sorriso.

Apesar de ter confirmado que B. era de fato B. decidi não procurar nada sobre ele nas redes sociais. Nem perguntar a amigos, nem despretensiosamente sondar o garçom. Não! Ele seria como eu quisesse que ele fosse. E eu queria que ele fosse minha doce ilusão. Ele era meu justamente por não ser. E isso ninguém tirava.

Todos os dias eu ia ao café no mesmo horário. Todos os dias B. estava na mesma mesa. Passei a reconhecer suas feições, a saber quando ele estava tenso, quando estava cansado e quando estava apenas entediado. Eis que passadas duas semanas após nosso primeiro “encontro”, B. me encarou novamente. E dessa vez sorriu para mim.

Se eu tivesse contado esse detalhe a uma amiga, ela provavelmente teria interpretado erroneamente a situação. Talvez até mesmo eu, em tempos passados, também assim o fizesse. Mas, com a certeza que só a vivência traz, eu entendi o que aquele sorriso queria dizer.

“Eu percebo a maneira como você me olha, infelizmente não posso lhe oferecer mais do que um sorriso. Espero que aceite”.

Eu aceitei de bom grado.

Desde aquele dia, sempre que eu me sentava na mesma mesa, B. me olhava e me entregava um sorriso. Eu o registrava, guardava e retribuía. Depois ele voltava para seu café, seu livro, seu celular, sua vida – a mesma que eu tive remotas chances de descobrir a respeito mas preferi me abster.

O B. que criei em minha mente provavelmente nada tinha a ver com o que realmente existia. Corri um grande risco ao abraçar aquele desejo e aceitar aquela fantasia, mas não me arrependo de nada. Desenvolvi por ele uma afeição há muito tempo não experimentada. Mais uma de minhas loucuras particulares, daquelas que não abro a ninguém.

Não foram poucas as vezes em que cogitei romper nosso acordo velado.Me aproximar, reclamar do dia chuvoso, sugerir um tipo de bebida, ou perguntar “ei, como vai sua irmã?”. Mas eu sabia que cruzar aquela linha significaria estragar tudo. Eu já destruira tantas vezes sentimentos parecidos com aquele por cometer o erro de romper o silêncio, que não dizer nada soava como a melhor das alternativas. “Dizer é um ato superestimado. Dizer quando o silêncio já esboça uma resposta é tolice”, tentava convencer a mim mesmo. No fundo eu sabia que estava certo.

Cerca de dois meses após o início dessa história, B. parou de aparecer. No início, eu me recusava a acreditar. Ainda ia ao café todos os dias na expectativa de vê-lo. Perguntei ao garçom se sabia do rapaz que sempre sentava naquela mesma mesa ali. Nada. Tal qual boa parte de minhas ilusões, ele desaparecera para virar história.

Aceitei esse fato sem protestar. Abracei a expectativa gerada pelo “talvez” e com ela guardei essa história, tal qual guardei tantas outras ao longo da vida, com R., com G., com… Quando se trata de amor, atração e desejo, nem sempre seremos agraciados com a benção da reciprocidade, pelo menos não da maneira como gostaríamos. É preciso muita maturidade para ver beleza na arte de contemplar.

Talvez B. nunca leia essas palavras. Talvez leia e não se reconheça nelas. Ou pode ser que ache graça de até onde podem ir as ilusões do ser humano. Ou talvez, apenas talvez, lembre daquelas tardes no café, daquele jovem rapaz moreno de óculos redondos que lhe sorria carinhosamente toda vez que o via. E talvez goste da maneira como tenha sido retratado, goste de saber que fora protagonista de algo maior do que pudera supor. E aí, deitado ao lado de seu amor, o convide a ler essas palavras e diga com um certo orgulho: “olhe só, acho que esse tal B. era eu”.

Sim, meu bem, era você.

 

(Foto: L.A.B Photography)

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