A caixinha das emoções secretas

Fim de tarde. Eu estava terminando de passar um café quando a campainha tocou. Era Mari, uma amiga de anos. Estranho ela aparecer sem avisar…

Ao recebê-la no portão fui surpreendido com um abraço apertado e um choro repentino. Imediatamente trouxe-a para dentro e lhe ofereci café. Não perguntei assim, de imediato, o porque daquele choro. Na verdade eu tinha um forte palpite de que sabia do que se tratava. Na noite anterior tinha visto nas redes sociais que ele estava de volta à cidade. Um pouco mais calma, ela me confirmou: realmente se tratava dele, de Raul.

Raul havia sido o grande amor da vida de Mari. Infelizmente ela estava muito mais apaixonada por ele do que ele por ela. No final das contas ele se apaixonara por outra e juntos foram embora da cidade. Quanto a Mari, bem, ela ficara para trás. Já faz três anos desde que tudo aquilo aconteceu. Raul tinha firmado compromisso com a garota por quem havia se apaixonado. Mari sofreu todo santo dia por muitos meses. Mas enfim seguiu sua vida. Se envolveu com outros caras, até ensaiara algo mais sério com dois deles. Estava tudo bem, é sério. Estava tudo bem desde que ele se mantivesse longe.

Naquela tarde Mari tentava desesperadamente me contar exatamente o que estava sentindo. “Eu juro que ele estava no passado, não sei o que aconteceu comigo, não sei porque tive esse colapso momentâneo, é que… é que… ah, sei lá!”. Eu a abracei. Ela não tinha que me explicar nada, eu sabia exatamente do que ela estava falando. E sabia como era complicado falar a respeito.

A verdade é que a maioria de nós tem Aquela Pessoa, protagonista Daquela História mal resolvida que por um motivo qualquer fomos forçados a guardar numa caixinha e arquivar numa gaveta secreta no fundo do coração. Tão secreta que com o tempo chegamos a quase esquecer que estava ali. Mas está, sempre estará. Há pessoas que são simplesmente inesquecíveis e sempre conseguirão nos desestabilizar de uma maneira que foge à razão. O alento é que em determinado momento da vida, passada a dor da partida, aprendemos a conviver com isso.

Mari havia guardado a tanto custo Raul naquela caixinha, que aquela altura do campeonato ter que lidar com aquele velho sentimento emergindo novamente parecia tão… tão cruel. Não era justo. Na verdade quase nunca é. Quanto mais a gente vive mais percebe que amor é uma ciência maluca cujas regras fogem a nossa compreensão. Amor e justiça não são necessariamente sinônimos.

Recuperada depois de ter recebido um ombro amigo, Mari limpou as lágrimas, guardou novamente Raul em sua caixinha das coisas secretas e foi para casa. Não importava quantas vezes tivesse que revê-lo, não importava quanto tempo ele ficaria na cidade, ela jamais deixaria que ele soubesse quanto poder ele ainda exercia sobre ela. Sensata decisão. “Ainda bem que você nunca teve que passar por isso”, disse Mari em meio a um abraço enquanto se despedia. Sorri discretamente e acenei positivamente com a cabeça, “Pois é, ainda bem”.

—— ♣ ——

Mais tarde, já de noitinha recebi uma ligação. Era ele. Era N. Engraçado como parece que as pessoas sumidas farejam o momento mais inoportuno para resolver reaparecer. N. não tinha nada demais para falar, só queria me deixar a par das novidades. A casa nova era linda e, segundo ele, “eu precisava urgentemente conhecer pois iria adorar a vista pro mar”. Seu filho estava cada vez mais esperto. Três aninhos já, uma graça!

“Irei assim que tiver uma folga do trabalho, estou ajeitando isso”, menti.

“Também sinto sua falta, meu bem…”. Era verdade. Como era.

Desliguei o telefone, deitei na cama e fiquei imóvel fitando o vazio. Lembrei de Mari, de Raul. Lembre de mim há alguns anos, lembrei de N. Lembrei de nós. Lembrei de como encontrar o amor de nossas vidas não significa em momento algum que nós também seremos o amor da vida da pessoa. Lembrei de como detestava ter descoberto isso. Lembrei de minha gaveta, tão bem escondida e preservada. Lembrei de quão bem eu ainda consigo fingir.

Ah, meu bem, se você ao menos soubesse o quão fundo eu tive que enterrar nossa caixinha…

 

 

Ilustração: Fussell

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